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26 dezembro 2017

Não estava à espera de ninguém. Durante a semana só quero chegar a casa, enfiar-me debaixo do chuveiro e sentir a pele debaixo da água quase a ferver. Seguem-se uma sopa quente ou uma fatia de pizza aquecida no microondas e 1 ou 2 horas entre um zapping sonâmbulo e as notificações das redes sociais. Ninguém do lado de lá da lente. Ouço de novo a porta. Acelero o passo até ao quarto, enfio o roupão com unicórnios e volto descalça à entrada: a luz do corredor está ligada. Coloco o fecho de segurança e entreabro a porta.
- Quem é?
Lembrei-me de ti. Empurras a porta e bate-la ruidosamente com o pé. As tuas mãos nos meus pulsos cerrados e o teu peito contra o meu, arfas como se tivesses corrido uma maratona. Sai-te um calor húmido pelas narinas, que se infiltra poros adentro. Reconheço-te o cheiro morno a desejo que faz anunciar o enredo. O protagonista entumece-se e acaricia-me o alto ventre, já encostados à parede do hall forrada a papel. Sem convite, a tua língua visita-me os lábios. Lambes-me como se lambem as feridas abertas, beijas-me os cantos da boca e a tua saliva chega-me em ondas, uma atrás da outra. Enrolas.te em mim. O protagonista entra em cena, dentro da cena. Penetras-me lenta mas firmemente, como só tu entras em mim; fico quieta e imóvel, como só eu permaneço quando tu estás. E o prazer bate à porta.
- Quem é?

09 junho 2013



cada célula do meu corpo reclama por cada célula do seu.
flameja-me a púbis, porque lhe suplicam as coxas: abram-nos.
 acesa, pestanejo ao ritmo do arfar do meu peito,
adivinho-lhe as vontades e deixo-me cair nos braços já despojados
 
.postcoitalis tristesse.

03 abril 2012

- Tenho medo, - confidenciou - ... .
Fazes bem, apeteceu-lhe responder. Em vez disso, murmurou-lhe um afago, que intencionalmente estendeu das maçãs do rosto à nuca. Puxou-a para si, pagando-se da longa espera com um beijo pegajoso.
Mãos ao longo do trémulo corpo, deixou-se despir inocentemente. Adivinhou o que viria a ver ser uma ereção quando ele a contornou, sem nunca lhe largar a cintura frágil.
- ! ... - , mas ele interrompeu-a, tirando-lhe em definitivo a roupa que ainda a cobria.
Haviam de deitar-se colados como as duas faces de uma mesma folha outonal. Haviam de sorrir, colidir, mentir, latir: explodir. (E ela guardou aquela data e hora dentro de si.)



05 fevereiro 2012

(do sítio do costume)

Já te tinha dito que nunca me tinha saído nada na vida?, repetia-me ele, nem uma raspadinha, uma rifa, euromilhões, nada, zero, niente. Não deixa de ser irónico, foda-se, a Rita podia tar aqui comigo. Ouve, nada contra, és a minha melhor amiga, claro. Mas sabes, ainda me passou pela cabeça dizer-lhe pa vir. Antes de falar contigo, tás a ver. Ao menos fazíamo-lo uma última vez num sítio diferente. Num hotel 4 estrelas. Xi, muito à frente. Olha, azar o dela.
-
Por que é que tás a fazer ares de quem já te passou a neura? És tão urso. Cuidado. Olha pá estrada, meu. Pára aí, quero fumar.
Encostámos numa berma improvisada, mas arrancou de seguida. Parou mais à frente, depois de virar numa cortada. Desligou o motor e aumentou o volume. Muse no CD. Punha sempre Muse quando tava fodido. Olhámos os dois para a escadaria de socalcos à nossa direita e soubemos logo que o cigarro ia saber melhor lá de cima. Descalcei-me e levei os tacões pela mão.
Estava a acabar de me dar lume quando começou a chuviscar.
- Eia bem... já não me lembrava que este cheiro existia.. Faz-me lembrar o cheiro a trigo quente na casa da minha avó..
Ya, a humidade que se libertava da terra seca dilatava-me as narinas. E mesmo àquela distância, conseguia observar o vapor a elevar-se da chapa quente do capot preto do carro do pai do f. A chuva parou segundos depois, mas o CD repetiu-se várias vezes. Ele já tinha amanhado uma garrafa quente de martini e arriscávamo-nos a ficar sem bateria no chaço. Deviam ser umas nove e meia e estava calor como o tava às quatro da tarde.
Acendi mais um. Tens o cabelo à frente, pá. Ainda o queimas., avisou-me, paternalista, desviando-me a madeixa. Não sabia, nem ele nem ninguém, que eu curtia o cabelo assim descaído, para disfarçar as orelhas grandes. Torneei a cabeça para a madeixa voltar ao lugar. Olha que chamuscas o cabelo, loirinha. Esticou a mão e deteve-a junto do meu lóbulo. Senti-o massajar-mo por uns segundos. Depois, espreguiçou os dedos e senti-lhes a firmeza no meu rosto. Acariciou-me a textura dum sinal que tenho junto às sobrancelhas. Puxou-me, puxamo-nos, e ficamos ali a arfar em silêncio, boca com boca, narizes colados. Começou a chuviscar novamente. E de novo, o odor langoroso a terra molhada. Deixamo-nos deslizar e as quatro mãos fizeram, sincronizadamente, o resto. Sentia pequenos tufos de erva refrescarem-me as costas e as nádegas, à medida que sentia o peso do corpo dele pousar no meu. Das costas dele deslizavam fios de água de chuva morna. Não sei dizer se o céu estava estrelado, se a música tocava ainda, se estávamos no mesmo socalco duriense.

11 junho 2011

rainbow


Hoje só o corpo. Não uses sequer o meu último nome, como gostas de fazer quando fodemos. "...É como os gajos da tropa fazem, os fuzileiros: ó cabo Silva isto, ó 1º Ramalho aquilo" - dizes-me para atiçar a líbido. O corpo apenas. Mas não mo dês em demasia. Embriagas-me sempre, enches-me até cima. E depois ressaco, uma longa e húmida ressaca que tenho de curar à distância. Obrigas-me a actos solitários que passo a abominar. Sentado na cama, a mão morna e frenética, a calar-me de ti. Caralho, depois sinto-me sempre ridículo com os kleenex a limpar a nhanha toda. Hoje dá-me só o pouco que mereço. Fazemo-lo de pé, nem precisamos tirar as calças. Queres tu por trás, na boa. Não te exijo nada, não me cobras nada também. Fazemo-lo, fumámos um Gigante e faço-me à estrada, que ainda são duas horas e tal. E enquanto o fazemos, purgo as merdas que me disseste. Estamos condenados à precariedade. (Deixa lá, os heteros também.) Não vou deixar de ir aos chats, vou continuar a adicionar no FB. E sim, se me apetecer vou até ao Boys e engato na hora, guilty-free. Empurras-me a nuca para a frente, submetes-me. És mais baixo uns centímetros mas não deixas que isso se note. Estás com a pica toda hoje, hein? A raiva é um bom combustor. O ciúme já o foi, mas deixou de funcionar connosco. Tás-me sempre a perguntar se é a última vez. Se é a despedida. Sei lá.

29 dezembro 2010


Para ela, eu estava a ser a última de muitas que se seguiriam. Eu tacteava, hesitava, retrocedia; ela avançava com a fome e a sede de mil noites de exílio. Qui-lo com as janelas e as cortinas escancaradas, para me atirar com a inconfidência das sombras dos prédios opostos e para que eu ouvisse a orquestração viva dos turnos diurnos. Fê-lo para melhor seguir o trilho das estrias das minhas coxas e para não deixar de olhar para as dobras das minhas carnes tão timidamente expostas. Não houve troca de palavras, nem poderia havê-la ali. O verbo tinha vindo antes, muito antes, exorcizados que foram os medos, moralismos e culpas.
Agarrei-me ao sommier que o estrado não tinha e às fantasias pré-fabricadas de um acto ternurento. Depois, como num salto, dei um passo em frente, deixei-me, permiti-me. Nenhum milímetro do meu corpo ficou por lamber, morder ou massajar. Os meus ombros, beijados como um santo milagreiro que se adora por respeito e esperanças, os meus dedos, chupados como quem suga o sangue, o elixir, a fonte de vida. O fantasma da penetração já havia sido expulso. Agora era o momento de dar e receber, de igual para igual, sem colonizadores nem colonizados, sem espadas, sem falos, sem músculos ou barba ou testosterona. Um espelho, um boomerang, uma piscina de água morna no sopé de uma montanha relvada.

02 novembro 2010

s and s


... é só acabar de engomar este vestido que se escapou da 5 a Sec e enfio-me na cama. Duas reuniões, um briefing seguido dum jantar de chacha com clientes que todos sabemos falidos. Um dia a menos no ginásio cujas coordenadas o GPS já apagou. As notícias em indeferido. A casa, como sempre. Vazia. Já fez dois anos. Porra, passa num ápice. Não fossem os blazers, jornais idos e papéis de letra miudinha aqui e ali e dir-se-ia uma casa de emigrados. Ele mais do que eu. Eu ainda incomodo o pó da cadeira da cozinha onde engulo uma chávena de chá ou, com sorte, uma sopa pré-cozinhada. Olha, chegou. Cedo, TÃO cedo. E hoje, que é final de semana. Não foste, não tiveste mesmo de? Qual é o argumento de hoje, diz-me lá.
R. chegou ruidoso. Pasta pesada para cima da consola, a gabardina que derruba o porta-revistas hirsuto e as chaves que tilintam contra uma porcelana que se adivinha defunta. Ela quase não teve tempo de se desviar, de dar um passo atrás, ou mesmo à frente. Já as mãos secas de R. lhe desciam as calças, as dela e as dele, e lhe procuravam o ponto , o ponto fraco. Sempre soubera que tinha mais sorte se apostasse nos canapés e num bom vinho à temperatura quente. antes de fazer o pedido principal. E assim, sem ela dar por nada, já o indicador lhe amaciava as entranhas. Já o médio da mão concorrente lhe acariciava a outra intimidade. Já ela se havia esquecido das noites solitárias, das datas brancas e de se desenhar desejos. Encostados a uma parede de papel que lhe arranhava, a ela, as níveas nádegas, ali fizeram o que sempre se fez, como sempre se quis. S&S. Stupid and simple.
Um beijo, no fim. Um beijo profundo, um mergulho dum rochedo.

01 dezembro 2009

timidezes

(imagem daqui)

Logo se precipitaram nos braços um do outro, ávidos de si mesmos. A humidade quente do lábio superior dela conspurcou a frieza da boca dele, já esquecida do enredo do calor humano. Duas línguas que se saúdam timidamente primeiro, descaradamente logo de seguida. Quatro mãos inertes que ganham vida, calcorreando os trilhos de duas timidezes. O teu nome, meu amor?, o teu corpo, que surpresa, tu que agora nem identidade nem olhar tens, súmula de todos os corpos, de todas as fodas que já tomaram lugar no espaço e no tempo. Ele fez deslizar as mãos papudas pelo torso dela, que se contorce, repetidamente, querendo mais, mais, querendo avançar com urgência.
Estão já próximos, tão próximos que o cheiro é quase um só, o cheiro do suor, da pressa, da orgia. Ela puxa-o com ambos os braços, ambas as mãos e ambas as pernas, suga-o, atrai-o para a sua teia. Ele deixa-se puxar, e suga-a, chupa-a também, que sede e que fome encerram estas ordens, e ama-a. Ama-a com beijos, ama-a com o corpo todo. O corpo dentro do dela, como há muito não entrava em lado algum. Um dedo anónimo percorre um dos seios brancos, frágis mas audazes .A língua dele lambe-o também, ao seio branco, em orquestração afinada com o seu membro envolvido nas carnes baixas.
E ondulam as ancas, esbarram-se os quadris, espalham-se as mãos. Ela cerra o punho e lança-o contra o peito do seu amante, que ferve, ferve como um toiro negro. E mmmm, os sons recíprocos, as lamentações irracionais daquele pedaço de desejo em consumação. Ele tem ainda tempo para sair para a acariciar pela primeira vez, uma festa fugaz, mas profunda. Os seus dedos e a sua língua absorveram aquela mucosidade e transportaram-na depois para a boca da mulher que se abre toda. Ouve-se a porta do andar de cima a bater, acorde mudo desta canção. Ela que nunca o havia reclamado, prova do seu próprio sabor quando ele lhe dá mais um golpe de misericódia, sinistro, seco. E ondulam de novo os corpos, agora mais forte e mais forte. Uma melena loira é agarrada e ela vinga-se como pode, espetando-lhe as unhas amareladas no pescoço suado. Um pensamento parece querer chegar, mas a entrada é-lhe negada. Três segundos, quatro talvez, de ausência quase simultânea de respiração. Os joelhos queimados pelo chão parecem sossegar; sim, sossegam. Páram, estão parados agora. E no entanto, aqueles dois corpos permanecem encaixados, sujos de amor, passivos agora. Quietos. Ele desenrola então para o chão. Ela puxa os cabelos para trás da orelha e acocora-se lentamente. Tão juntos estes corpos que esfriam.